NuEFem, para uma teoria econômica que inclua todes.

Por Núcleo de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos | Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2020

Esse pequeno texto foi escrito coletivamente com o intuito de compartilhar com vocês algumas das ideias e o processo de criação do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos (NuEFem). Em primeiro lugar, esse é um texto colaborativo, criado conjunta e democraticamente e, sobretudo, trazendo as nossas ideias teóricas junto com as nossas experiências de vida e acadêmicas, pois esse é um dos eixos norteadores do nosso grupo, do nosso método de pesquisa e do nosso modo de fazer ciência.

Em 2018, apareceram as primeiras sementes do grupo, com uma motivação muito clara, após muitos anos de estudo e pesquisa em economia, foi ficando cada vez mais evidente que tínhamos naturalizado a presença exclusivamente masculina no âmbito econômico. Falavam homens, sobre homens e para homens e, sobretudo, de um tipo muito específico de homem. Existia um véu de machismo estrutural que ninguém mencionava. O estudo da economia nas suas versões tradicionais, tanto da teoria clássica como neoclássica, não inclui perspectivas de gênero ou de raça. Não considera as condições de opressão sistêmicas e históricas. Não inclui o estudo da divisão sexual do trabalho nem o racismo estrutural que são determinantes para o processo de acumulação do sistema econômico capitalista. Para a teoria moderna, não existe desemprego e, se existir, é simplesmente o resultado de uma decisão racional ou de uma falha de mercado, mas nunca está na base do mecanismo de exploração que caracteriza o processo econômico. A teoria dominante, mainstream, utiliza o conceito do homo economicus (homem econômico) como o agente representativo que explica os comportamentos econômicos racionais dos indivíduos, através das suas decisões de consumo, compra, produção e venda. As mulheres não aparecem no raciocínio econômico e tal exclusão traz sérias consequências, tanto para a formação de políticas econômicas, como na desvalorização social de determinados trabalhos, esforços e participações, hierarquizando a humanidade. A teoria econômica (clássica, neoclássica, ortodoxa, heterodoxa) não inclui nem valoriza a produção doméstica e a economia dos cuidados. Não pensa na divisão sexual do trabalho, segundo a qual o esforço das tarefas de reprodução da vida, que recai quase exclusivamente sobre as mulheres, carece de valor mercantil. Para a teoria econômica, as mulheres são invisíveis. Nos currículos de economia, ao menos por enquanto, também. Além dos homens terem historicamente dominado os espaços da ciência, as mulheres continuam recebendo tratamento desigual, seja no mundo acadêmico ou profissional. Levantamentos das dificuldades que as mulheres enfrentam[1] indicam que: o percentual de mulheres é inferior em todos os estágios da carreira do economista; a probabilidade de serem promovidas no ambiente acadêmico é inferior à dos homens, mesmo apresentando a mesma produtividade; as mulheres recebem menos crédito em artigos científicos escritos em coautoria e seus artigos, além de estarem sujeitas a padrões de seleção mais elevados, demoram mais tempo para serem avaliados; estagiárias ou instrutoras de docência recebem avaliações piores de seus orientadores; e as mulheres são sub-representadas nos manuais de economia. Mesmo que o gap de gênero seja uma realidade para diversas carreiras, especialmente para aquelas que recebem salários mais elevados, as pesquisas indicam que este gap é sempre relativamente maior no campo da economia.

Assim foi que em 2018 decidimos começar a mudar isso, e iniciamos com os grupos de estudos e debates de economia e feminismos no Instituto de Economia, como projeto de extensão, coordenados pela profa. Margarita Olivera. A cada semestre se formaram grupos maravilhosos de estudantes internes e externes, ávides por conhecer e discutir sobre economia feminista. Cada une trazendo a sua visão, o seu pensamento e a sua experiência. Em quatro semestres, mais de 90 alunes participaram dos encontros nos quais se estudaram e debateram textos fundamentais para entender a reprodução social, o processo de opressão sistêmica das mulheres, o processo histórico de avanços e retrocessos em matéria de direitos, as raízes da violência e os papéis de gênero, a interseccionalidade, entre tantos outros temas; a partir da leitura de obras de grandes autoras como Silvia Federici, Nancy Fraser, Angela Davis, Heleieth Saffioti, Thity Bhattacharya, Glaucia Fraccaro, Hildete Pereira de Melo, Veronica Gago e Maria Lugones. Esses grupos, essas trocas, essas experiências foram essenciais para criar a disciplina eletiva de Economia e Feminismos do IE e o Núcleo de Estudos e Pesquisas de Economia e Feminismos (NuEFem).

Em particular, a partir da pandemia e do isolamento social, que forçou o grupo a passar à virtualidade, não só abrimos o canal de Youtube de Economia e Feminismos, essencial para divulgar os nossos estudos e debates, mas também conseguimos ampliar o espaço e a participação, multiplicando as nossas ideias e trocas. A partir dessa experiência nasceu a parceria com pesquisadores maravilhoses que hoje conformam o grupo, em especial com a profa. Clarice Menezes Vieira, do IM/UFRRJ.

Naquele Instituto, assim como no IE, es alunes são expostes a diversas abordagens teóricas. Linhas de pesquisa ortodoxa e heterodoxa mostram que a leitura dentro do campo econômico pode ser feita com diversos enfoques, partindo de variados pressupostos e objetivando centralmente os impactos e meios de garantia do crescimento econômico, permitindo que nossos horizontes se mantenham abertos para pluralidade constituinte no debate crítico. Apesar da diversificação, porém, fica o incômodo pela falta do recorte de gênero ainda que se trate de uma ciência que se proponha a lidar diretamente com a vida dos seres humanos.

Sabe-se que a aprovação dentro do espaço acadêmico não é apenas um movimento inconsciente de busca por uma inclusão social e intelectual, mas também uma estratégia consciente de construção de carreira profissional pessoal. Não podemos negar a importância dessa mobilidade social através da academia para muitas mulheres que, de forma ainda deveras recorrente no Brasil contemporâneo, são as primeiras de suas famílias a ocupar esses espaços. Assim sendo e levando em conta que o curso de Economia ainda é um curso extremamente elitizado e que é renomado por proporcionar esse tipo de ascensão social, o NuEFem possui uma importância não só em termos de preenchimento de vácuos dentro da teoria econômica, seja ela heterodoxa ou não, mas de alternativas dentro da academia para que haja um espaço de pertencimento para alunas e alunos que pensam de forma crítica, mas que desejam desenvolver suas carreiras dentro deste âmbito. Vem assim como uma rede de conhecimento e apoio, feito por mulheres e para todes aqueles que se interessem, para disseminar informações mostrando que o papel das mulheres nessa ciência social aplicada tem, também, condição de agente.

E por que a Economia é assim? Veja, o status quo metodológico da Economia, isto é, a operacionalidade de sua corrente de pensamento dominante, é formalmente derivado de uma exclusão sistemática da mulher e de objetos reais na História do Pensamento Econômico. Consolidada como ciência, em Smith, [já] rejeita-se a proposição de uma investigação do abstrato para o concreto real, um questionamento materialista dos agentes sociais e os aspectos que os formam. Toma-se a aparência do conjunto social e o conforma, via teoria econômica, aos meios ideológicos já naturalizados (pela violência, diga-se de passagem) — o patriarcado e o mercado, por exemplo. Assim, pois, a práxis da Economia dominante tem seu ápice (e síntese) no arcabouço matematizado — e tipicamente excludente de diversas variáveis — entre o homo economicus e os mercados perfeitos, “embasados” num punhado de relativizações. No contexto ontológico, ou seja, no estudo da composição do ser social, esse método econômico é pura utopia, quase um alarde metafísico. A materialidade das relações sociais, do concreto real histórico, renegou à mulher, através do patriarcado e de sua amplificação no capitalismo, direitos existenciais: ao seu corpo foi aderido fetiche mercantil, seu trabalho é dado como não produtivo, seu tempo disponível é dispendido na cozinha e nos cuidados domésticos, seu corpo e reprodução são vítimas de segregações e moldes estéticos, transvestiu-se em “amor” uma escravidão ao homem; em suma, transformou-as em seres sociais semelhantes a mitos gregos, completamente mistificadas e apagadas da História — eis as bruxas de Federici.

Porém, estamos convencides que conhecimento é poder e, quando pensamos na construção desse conhecimento como um todo, não podemos deixar de evidenciar os processos sociais, políticos e econômicos — com grande destaque para a colonização — que até hoje influencia a maneira como o conhecimento é produzido e compartilhado. Identificando a necessidade de descolonizar não apenas o conhecimento sobre a Economia, mas também de todas os campos que podem dialogar com ela, o NuEFem carrega em si a proposta de ser um grupo que debate e defende a produção acadêmica, principalmente a produção feminista desde um lugar descolonial para subverter a lógica dominante e assim caber todas as perspectivas e realidades dentro dele. Desde 2018, a partir do início do Economia e Feminismos, se constrói um espaço plural e diverso no qual alunes e pesquisadores de todas as áreas são bem-vindes e trabalham de forma coletiva e horizontal na costura de uma agenda que inclui visões desde a Economia, mas também desde as Relações Internacionais, do Serviço Social, das Ciências Sociais, da Comunicação Social, da Arte e da Antropologia e que discute sobre a necessidade de terminar com a opressão sobre mulheres e dissidências dentro do capitalismo patriarcal. Buscamos esse objetivo a partir da centralidade econômica, pois sem democracia econômica não há democracia política e, por consequência, não há autonomia e liberdade. O grupo carrega uma história breve de três anos, mas que pretende se fortalecer pelos tantos que virão.

Organizamos nossos estudos em três linhas de pesquisa. Na linha de “Mulheres, mercado de trabalho e renda” concentramos os estudos que se voltam para a realidade brasileira do mercado de trabalho e da geração de renda das mulheres, seja em termos de salários, tipo de ocupações, emprego nos cuidados, desemprego, endividamento, etc, considerando igualmente os aspectos interseccionais. Na linha de “Pensamento Econômico Feminista” buscamos aprofundar nossa reflexão teórica, debatendo autoras que desenvolveram olhares feministas aos problemas econômicos e que venham tentando construir alternativas epistemológicas, metodológicas e teóricas à ciência econômica tradicional. Por fim, na linha de “Colonialidade do gênero e necroeconomia no Brasil” pretendemos aprofundar nossa reflexão em torno da colonialidade, entendida como processo histórico central constitutivo da sociedade brasileira, em especial para forjar as estruturas de poder que submetem as mulheres e dissidências às distintas opressões, incluindo a opressão econômica.

Notas:

Autoras/es do texto

Dora Nascimento, 3˚ período de Ciências Econômicas IE/UFRJ

Letícia Graça, Internacionalista IRID/UFRJ

Margarita Olivera, Professora IE/UFRJ

Mariana Cabral, 9º período de Ciências Econômicas IM/UFRRJ

Patrick da Silva, 4º período IE/UFRJ

Contato: economiaefeminismos@ie.ufrj.br

Instagram: @economiaefeminismos

Uma revista pensada por graduandes💡Compartilhando conhecimento e ideias 🎓Instituto de Economia da UFRJ 📷Redes sociais: https://linktr.ee/arenaufrj

Uma revista pensada por graduandes💡Compartilhando conhecimento e ideias 🎓Instituto de Economia da UFRJ 📷Redes sociais: https://linktr.ee/arenaufrj